Retrospectiva 2018: o ano das mulheres na Ficção Científica

Em 19 de agosto deste ano, foram anunciados os vencedores do Hugo Awards – o maior e mais importante prêmio de Ficção Científica do mundo. Como melhor romance, gravado vencedor, estava o livro The Stone Sky, da norte-americana N.K. Jemisin.

A estatueta veio para coroar Jemisin como melhor autora de FC e Fantasia dos últimos anos: em 2016, ela foi a primeira escritora negra a receber um Hugo por A Quinta Estação (The Fifth Season, publicado no Brasil pela editora Morro Branco, em 2017), livro que abre a trilogia Terra Partida (The Broken Earth Trilogy). No ano seguinte, Jemisin repetiu o feito com a sequência, O Portão do Obelisco (The Obelisk Gate). O prêmio de The Stone Sky (previsto pela Morro Branco para 2019, mas ainda sem tradução oficial), que fecha a série, a tornou a primeira pessoa a receber três Hugo seguidos em 65 anos.

Na ocasião, Jemisin – que também carrega três prêmio Nebula pela mesma trilogia – fez um discurso belíssimo e emocionado, em que lembrou que seu percurso como mulher negra e autora de Ficção Científica foi marcado por obstáculos e luta.

Jemisin é a representação perfeita da literatura que ganhou espaço em 2018, mas ela não é a única. O ano foi consagrado por títulos de autoria feminina que finalmente chegaram ao Brasil e foram reconhecidos como Ficção Científica de qualidade, com narrativas densas e personagens fortes, diversos, complexos e críticos à sociedade atual.

“… a vida num mundo difícil não é nunca apenas uma luta”

Em seu discurso de aceitação do último Hugo, sobre a ideia para a Terra Partida, a autora disse: “Acho que é bem óbvio que tirei inspiração da história humana de opressão estrutural, assim como meus sentimentos sobre este momento na história americana”. Sentimentos estes que ficam claro no texto que é recheado de críticas à sociedade, classe e raça.

A narrativa de Terra Partida fica em cima da linha tênue que existe entre FC e Fantasia e trata da história de Essun, uma mulher que chega em casa e encontra seu filho de três anos morto, assassinado pelo próprio pai, e sua filha de nove, desaparecida. No mesmo dia, começa o fim do mundo e a jornada da personagem.

Mas são seus personagens os verdadeiros trunfos da autora: Essun, Nassun, Alabaster, Syenite, Damaya, Schaffa, Hoa e tantos outros são complexos e também são falhos, como devem ser. Nenhum existe a toa, nenhum existe para fazer volume e nada, nenhuma das histórias são entregues facilmente – é uma descoberta e evolução conjunta entre narrativa e público. Jemisin constrói cada acontecimento e personalidade de acordo com o avanço do texto de forma primorosa e é o leitor que ganha com a riqueza de detalhes e ensinamentos carregados pela obra.

Além de autora de uma trilogia já obrigatória aos fãs de FC e Fantasia, Jemisin fechou o ano com o lançamento de How Long ‘til Black Future Month? (ainda sem tradução e sem previsão de publicação por aqui), uma coletânea de 22 contos que mostra sua evolução como escritora e, apesar de independentes, tratam as cidades como personagens centrais. Os leitores já iniciados poderão estranhar alguns dos textos, mas reconhecerão elementos de outras histórias.

“O universo é aquilo que fazemos dele. Cabe a você decidir que papel quer desempenhar”

Se é de diversidade e personagens fortes e bem desenvolvidos que falamos, A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil (The Long Way To A Small, Angry Planet, publicado no Brasil pela DarkSide), de Becky Chambers, não pode ficar de fora. A obra, um sci-fi moderno que carrega todos os elementos, com direito a naves espaciais, viagem entre buracos de minhoca e brigas intergalácticas, foi um projeto diferente desde o início: sua produção foi feita a partir de uma campanha do Kickstarter – uma ferramenta de financiamento coletivo.

Em A Longa Viagem, o leitor acompanha a história de uma tripulação que embarca na nave Andarilha com a missão de abrir um portal entre o centro político da galáxia e um pequeno planeta distante, que acaba de se aliar ao governo vigente. No caminho, os personagens esbarram em obstáculos pessoais e coletivos que devem ser resolvidos durante o confinamento espacial.

Aliás, não há nada mais apaixonante nessa história do que os personagens. A tripulação da Andarilha é composta por indivíduos de planetas, espécies e gêneros diferentes  – incluindo uma Inteligência Artificial que comanda os sistemas da nave, e que homenageia Ada Lovelace, a primeira programadora do mundo. São personagens complexos e que com suas especificidades tratam de temas como amizade, racismo, poliamor, feminismo, fluidez de gênero e conceitos de família.

A Longa Viagem é o primeiro de três livros da série Wayfarers. O segundo título, A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada (A Closed and Common Orbit), foi indicado como melhor romance para o Hugo de 2017 e chegou ao país este ano, também com o selo DarkLovers, da DarkSide Books. O terceiro volume da série, Record of a Spaceborn Few, ainda não tem previsão de lançamento por aqui.

“Se vai fazer alguma coisa assim tão louca, guarde para quando puder fazer de fato uma diferença”

A estréia de Justiça Ancilar (Ancillary Justice), da norte-americana Ann Leckie, em 2014, foi marcada por reconhecimento em premiações:  Hugo, Nebula, Locus, BSFA e Arthur C. Clarke. Apesar de já reconhecido entre os fãs do gênero, a tradução brasileira só chegou neste ano, pela Editora Aleph.

O livro conta a história de Breq, uma ancilar, membro do Radch, o império que domina a galáxia, e a nave Justiça de Toren – uma porta-tropas gigantesca com uma única inteligência artificial que habitava e controlava milhares de soldados. Mas após uma traição, tudo o que restou de Breq foi um corpo humano para enfrentar o império.

Leckie conseguiu construir uma narrativa possível para agradar iniciantes e iniciados em FC. Justiça Ancilar é uma Space Opera movida por vingança e que reúne alguns dos elementos clássicos do gênero: inteligência artificial, conflitos de xenofobia e classe e política interplanetária são algumas das coisas presentes no texto.

A linguagem é parte importante da história e merece destaque. O idioma de Breq, a personagem principal e narradora da trama, não tem pronomes com gênero definido. A autora simula uma tradução do idioma radchaai e optou por flexionar as palavras para o feminino – característica mantida na tradução de Fábio Fernandes para a Aleph.

Justiça Ancilar é o primeiro livro de uma trilogia. As sequências Ancillary Sword e Anciliary Mercy (ambas sem previsão para publicação no Brasil) também venceram o Locus Award e receberam indicações para o Nebula.

“Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco”

Octávia E. Butler talvez seja o maior nome dessa lista. A dama da Ficção Científica, como é conhecida, ficou famosa por conseguir unir racismo e feminismo a elementos extraordinários em suas obras afrofuturísticas.

Em Kindred: Laços de Sangue (Kindred, publicado aqui pela Editora Morro Branco), seguimos Dana, uma jovem escritora negra que está de mudança para um novo apartamento ao lado de seu marido. No seu aniversário de 26 anos, Dana vive sua primeira viagem no tempo: ela se sente mal e acorda à beira de um rio, onde uma criança se afoga. Depois de salvar o menino, Dana sai da água e se depara com uma espingarda apontada em sua direção.

Dividida entre sua casa em uma Los Angeles de 1976 e uma fazenda pré-Guerra Civil em Maryland, Dana conhece seus ancestrais e se envolve com a comunidade escrava e agrícola da região, enquanto faz o que é necessário para sobreviver e retornar ao presente.

Publicado pela primeira vez em 1979, Kindred é uma obra poderosíssima e atual. A partir de uma narrativa direta com elementos da FC, aborda a dinâmica e dilemas da escravidão, a dualidade de casamentos inter-raciais, questões de poder, gênero, raça e as perspectivas de um futuro igualitário.

Para ficar de olho em 2019

Com campanhas que buscam incentivar a leitura de autoras, como a #LeiaMulheres, que teve início em 2014 e continua até hoje, a demanda do mercado permanece aquecida com novas publicações de qualidade em todas as áreas, inclusive na Ficção Científica, gênero majoritariamente masculino.

Para o próximo ano, a editora Morro Branco já anunciou a publicação de The Stone Sky, obra que fecha a trilogia de N.K. Jemisin, citada acima. A expectativa, no entanto, é que mesmo sem confirmação, novos títulos de FC escrita por mulheres cheguem às livrarias brasileiras. Vale acompanhar o catálogo de editoras que, acompanhando a demanda do mercado atual, têm se dedicado a publicar mulheres e FC.

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